Obrigado, foi um Lucho

à(s) 00:50

quinta-feira, 2 de julho de 2009


Não para todos, mas o futebol foi, é, e há-de ser muito mais do que meras questões clubísticas. Este desporto é também uma forma de arte e se há jogador nos últimos anos em Portugal que ajudou a perceber isso foi Lucho Gonzalez, 'El Comandante'. O final de Junho trouxe-nos a notícia da sua saída para o Marselha. É uma pena, e digo-o acredito que representando adeptos de todos os quadrantes. Quando falamos do futebol de Lucho, não interessa se somos adeptos do Porto, Benfica, Sporting ou de outro qualquer clube. Interessa que somos adeptos de futebol. E gostamos de ter o melhor deste desporto bem perto de nós.

Luís Oscar Gonzalez nasceu em Janeiro de 1981 em Buenos Aires, capital da Argentina. Os primeiros passos e o epíteto de grande promessa chegaram no Huracán, pormenores que o levaram a dar o salto para um dos melhores clubes das 'pampas', o River Plate. Onde a sua qualidade veio ao de cima, de forma natural, como o seu jogo. O Porto, no início da sua virada recente para o mercado sul-americano não estava de todo desatento e resgatou o diamante dos 'milionarios'. Para quem como eu, vê Lucho (o apelido não é por acaso) como tendo sido consecutivamente o melhor jogador do nosso campeonato, esta terá sido a melhor contratação dos dragões desde a conquista da Liga dos Campeões.

Deste jogador não esperamos aquela frase 'trato a bola por tu'. Lucho Gonzalez não é propriamente atleta de grandes adornos ou de fintas mirabolantes. É na relação com a equipa, com as exigências do jogo que 'El Comandante' se destaca. Porque o percebe sempre muito bem, porque não precisa de correr kms para estar onde está a bola, porque pensa sempre um segundo (em futebol é uma eternidade) antes dos demais. O esférico sai sempre jogável dos seus pés ou não fosse fortíssimo na tomada de decisões. O passe para o avançado, a triangulação, as trocas posicionais, a recepção orientada para a baliza. Um jogador para valer 10 golos por época, aproximadamente o mesmo a nível de assistências, e incomparavelmente mais no que diz respeito à importância (ofensiva, defensiva e transicional) no jogo da equipa. Um pequeno exemplo? Relembremos o Porto x Manchester United desta época no Dragão e percebamos a diferença na equipa portuguesa antes da lesão e após a lesão de Lucho.
Uma outra nota. O fair-play, o respeito para com o adversário. Num futebol que perigosamente está cada vez mais num nível de 'encenação' e de pouca entreajuda entre colegas, tocando muitas vezes a falta de respeito, Lucho era também neste ponto um bom exemplo.

O Marselha é o próximo passo de um jogador que, prestes a completar 29 anos, já muitos esperavam que terminasse a carreira europeia no Porto. Não sei se o clube segundo classificado da Liga Francesa, mesmo em crescendo, será a melhor opção desportiva para Lucho. A verdade é que chegando a esta fase da carreira muitos jogadores pensam mais no aspecto económico. Longe de ser censurável. Não se pode é deixar de lamentar que um indivíduo como Lucho, uma qualidade futebolística como a que ostenta, provavelmente nunca vá brilhar nos melhores clubes de Inglaterra, Espanha ou Itália (como assentava bem no Inter de Mourinho...). Provavelmente essa foi também uma das razões para, mesmo com cerca de quatro dezenas de internacionalizações, nunca ter adquirido o estatuto de titular indiscutível da Selecção Argentina.

Na perspectiva económica, este foi para o Porto um bom negócio. É indesmentível. Desportivamente e a nível de balneário duvido. No campo porque a sociedade Meireles-Lucho era um dos maiores suportes da equipa, e porque não há jogador semelhante a Lucho Gonzalez ao alcance do Porto. Tal como na época passada caberá a Jesualdo, não subsitituir directamente um jogador que sai, mas perceber qual a melhor forma da equipa reagir a esta perda, alterando parcialmente o seu modelo. A nível de balneário o caso será mais complicado. Especialmente se às perdas de Pedro Emanuel e Lucho Gonzalez, se somarem as mais ou menos previsíveis de Bruno Alves ou Nuno. Seria importante para a estrutura do Porto manter estes dois jogadores. Porque perder as reconhecidamente quatro traves mestras do grupo, numa época será um duro golpe.
Ou não nos lembrássemos todos do período crítico da equipa por alturas de Outubro/Novembro e das entrevistas e dos abraços de todos os jogadores a Pedro Emanuel no final da temporada, salientando a sua importância nos sucessos da época.

A armada invencível

à(s) 01:33

terça-feira, 23 de junho de 2009


Faz pouco mais de 13 meses, e a opinião de grande parte do Mundo do futebol sobre a Espanha era semelhante: grande campeonato, excelentes canteras, jogadores temíveis, equipas fortíssimas, Selecção principal um patamar abaixo. Dominados por um estigma que atingia o grupo na altura das grandes competições: a expectativa no meio de tanta qualidade era elevada, os resultados não eram os melhores.

Provavelmente o Euro-2008 seria a primeira das grandes competições na qual a Espanha não era, regra geral, considerada uma das selecções favoritas (salvo, e com todo o mérito, por José Mourinho). O desfecho final da prova, e a forma como esta decorreu, comprovaram como o futebol está longe de ser uma ciência exacta. A Espanha dominou em toda a linha, marcando uma superioridade assinalável em relação às restantes equiopas. Afinal, foi um Campeonato da Europa de Selecções, em 1964, a sua principal conquista da história. E foi a mesma prova, 44 anos depois, que devolveu a glória a 'nuestros hermanos'.
Em Campeonatos do Mundo, salvo o 4º lugar em 1950, as sucessivas equipas de Espanha não lograram nunca ultrapassar a barreira dos quartos de final. Falta portanto alguma consagração a nível mundial a este país no que ao futebol de selecções diz respeito.

Os seus adeptos pensarão que melhor altura do que esta é difícil. A Espanha brilha individual e colectivamente no campo, denota estar num patamar qualitativo superior a todas as outras selecções. A prová-lo o 1º lugar no Ranking FIFA, o record absoluto de vitórias consecutivas - 15, e o primeiro lugar ex-aequeo com o Brasil no que diz respeito à invencibilidade - 35 jogos sem derrotas. O grande confronto pode realizar-se na Final da Taça das Confederações. A superioridade actual da Espanha, a superioridade histórica do Brasil, num jogo que o Mundo aguarda ansiosamente.

A magia brasileira, e o futebol de régua, esquadro, triangulação, bola no pé e passe curto da Espanha. A equipa manteve a matriz, mesmo com a saída de Aragonés e a chegada de Del Bosque.
Na baliza Casillas é o dono absoluto das redes, e mesmo com a boa concorrência de Reina e Valdés, ou com a promessa Asenjo, a sua titularidade não está sequer ameaçada. Voz de comando e muita qualidade a comandar uma defesa forte, com sangue na guelra e experiência. Sergio Ramos e Capdevilla são laterais altos e competentes a defender, mas que sobem muito bem, criando inúmeros desequilíbrios. O habitual Puyol e o central de futuro Albiol assumem as despesas no centro.
Á frente da defesa Senna ou Xabi Alonso são o tampão às investidas adversárias, e os primeiros construtores de jogo, sempre com imenso critério na posse. Um pouco mais à frente, Xavi e Iniesta, os 'bi-campeões da Europa' (clube e selecção) e certamente uma das grandes explicações destes sucessos moldam a equipa, dão-lhe as coordenadas do futebol bonito e eficaz. Iniesta não está e nas Confederações é Fabregas quem (bem) o substitui. Também por aqui percebemos a riqueza das opções de Del Bosque. O quarto médio, que muitas vezes se adianta no terreno, tem a cultura de extremo e acelera o jogo quase sempre pelo flanco esquerdo - Riera e David Silva competem pela titularidade.
O duo da frente, dispensa apresentações. Basta dizer que a Espanha tem dois dos avançados do top-5 Mundial, são eles Villa e Torres, homens capazes de decidir jogos de um momento para o outro, e garantia de muitos golos.

No banco, o sábio Del Bosque, o homem capaz de domar os Galácticos de Madrid, comanda agora as operações. Depois do Europeu, pelo que a equipa tem jogado na fase de qualificação, os adeptos já só sonham com o Mundial 2010 na África do Sul. E se o futebol for mesmo feito de ciclos, a próxima sucessora da 'Julie Rimet' já tem um destino: Madrid.

Adiós Benfica, por Quique Sanchez Flores

à(s) 02:11

terça-feira, 9 de junho de 2009


Hoje chegou a confirmação oficial do que há muito se previa. Por mais que ultimamente se tenha falado bastante nas maiores perspectivas de sucesso que a continuidade oferece em relação à mudança, a verdade é que a permanência de Quique Flores no comando do Benfica era já um produto com prazo de validade extinto.
Por muitas razões. Pela conjectura em que navega o clube vai para duas décadas, pelo percurso da equipa bastante abaixo das expectativas. Mas se, por exemplo, o despedimento de Fernando Santos me pareceu prematuro e contra-natura, assim não é com Quique. Não que o espanhol não tenha boas ideias ou não seja um bom profissional. Não que o Benfica não tenha evoluído no que diz respeito ao profissionalismo da estrutura para o futebol, ou na metodologia científica aplicada no processo de treino. Mas sim porque o espanhol revelou sempre um desconhecimento profundo do nosso futebol, que nunca demonstrou abertura para contrariar. A equipa manteve-se sem qualquer evolução desde o início da época, e essa é a maior crítica que se pode fazer a um treinador.

Na perspectiva de Rui Costa, acredito que a decisão não tenha sido fácil. Precisamente porque no final da sua primeira época como director desportivo foi obrigado a abdicar do 'seu' treinador. O homem que acreditava, aquando do estudo do seu perfil, ser o mais indicado para devolver o sucesso ao Benfica. Assim não foi. Obviamente que soluções de continuidade serão mais aconselháveis, mas não quando não são apresentadas perspectivas de evolução, ou no mínimo de continuação de bom trabalho. Não houve sequer uma evolução na ponta final da temporada, algo que acredito poderia fazer valer a continuidade do espanhol. Tal não aconteceu, e o desfecho foi o cenário mais óbvio.

O próximo treinador será muito provavelmente Jorge Jesus. No campo, é um treinador de top. Assim comprovam os discursos dos seus ex-jogadores, os resultados e as exibições das suas equipas. Mas para o sucesso muitas vezes tal facto não é suficiente. Em primeiro lugar, Jesus terá de evoluir a nível do discurso. É certo que o bom futebol vale mais do que um grande discurso (Quique Flores é disso um bom exemplo, inversamente), no sentido de aproximar os adeptos da equipa, mas principalmente na fase inicial será importante passar a mensagem. Depois a estrutura para o futebol terá que ser mais presente, mais solidária nos maus momentos, ao contrário do que aconteceu pontualmente com Quique nesta época.
Esse é o segredo de uma equipa vencedora. Começa antes da entrada em campo, na preparação, na estrutura que suporta os craques, no profissionalismo, no método, na segurança que permite ao treinador centra-se apenas nas suas funções: treinar.

Até hoje muitas críticas têm sido feitas pelo facto de o Benfica contratar jogadores antes da escolha do treinador. Sou completamente contra essas opiniões. Elas podem ser feitas na eventualidade de não haver uma ideia de jogo definida para o clube. Acredito que Rui Costa a tenha. E as contratações, salvo ajustes pontuais ou uma ou duas exigências para potenciar o modelo, não devem ser feitas de acordo exclusivamente com os desejos do treinador. Devem sim, estar de acordo com o que se pretende para o clube, baseando-as em opiniões avalizadas a nível técnico-táctico por alguém com conhecimento suficiente de futebol (segundo se consta discutidas entre Quique e Rui Costa) e suportadas pelo departamente de prospecção.
Apesar de tudo, algo continua a falhar no Benfica. A excessiva 'ligação' a certo tipo de empresários, e a, até agora, indisfarçável predilecção pelo mercado sul-americano em detrimento do português. Factos estranhos, especialmente quando se aproxima a lei do '6+5'.

A próxima época pode ser deles

à(s) 02:47

quinta-feira, 4 de junho de 2009


O campeonato português terminou e chega a hora do balanço. Por entre objectivos cumpridos, insucessos e segundas metas alcançadas, houve jogadores que deixaram a sua marca, o seu cunho qualitativo na prova. Porque mesmo que nem todas as equipas não tenham atingido aquilo a que se propuseram, existem jogadores nos seus plantéis capazes de mais. Este artigo é sobre isso mesmo, os jogadores jovens capazes de explodir num grande, ou os menos jovens, mas ainda capazes de lá chegar. Tudo isto compilado num plantel de 25 elementos.

Júlio César (Belenenses, 22 anos) - o jovem guarda-redes brasileiro de 22 anos, ex-Botafogo, foi quase sempre o melhor elemento de um irreconhecível e mal preparado Belenenses. A sua agilidade dentro dos postes e a boa saída a cruzamentos, factores aliados a uma previsível boa preparação mental (jogou numa grande equipa brasileira e manteve sempre o nível exibicional no aflito e sobre constante pressão Belenenses), fazem dele uma aposta muito interessante, agora ou na próxima época. Para a 2a Liga é difícil que vá.

Eduardo (Braga, 26 anos) - Defendo-o desde a época passada, Eduardo é o melhor guarda-redes português. Mesmo com dois jogos infelizes esta época (PSG e Benfica), a opinião não mudou e a chamada à Selecção principal é um justo prémio. Contudo, ainda é excessivo compará-lo por exemplo a Vítor Baía, mas as suas qualidades e segurança- principalmente dentro dos postes, tornam-no capaz de jogar ao mais alto nível.

Ventura (Porto, 21 anos) - O jovem portista praticamente não jogou nesta temporada. Teve aparições discretas na Taça da Liga e no jogo da Trofa, mas o conhecimento que tenho dele fazem-me inclui-lo na lista, em detrimento de jogadores de qualidade como Beto ou Bracalli. Precisamente pela grande margem de progressão.

Miguel Lopes (Rio Ave, 22 anos) - A transferência para o Porto está consumada, justificadamente. Tem uma grande propensão ofensiva o que, conseguindo agarrar o lugar, pode fazer com que desempenhe no Porto tarefas semelhantes às de Bosingwa. Para isso conta com a sua rapidez de recuperação e a sua boa capacidade de cruzar. Tem como ainda como aliados a altura e o bom remate.

João Pereira (Braga, 25 anos) - O João Pereira que apareceu no Benfica está diferente. Mais jogador, mais forte defensivamente, mantendo as qualidades ofensivas que de certo modo o destacaram no clube da Luz e que o faziam actuar algumas vezes como médio. Não duvido tratar-se de uma boa aposta para um clube superior, apesar de precisar moldar alguma agressividade que apresenta em determinados lances. A estatura também pode ser um handicap, mas a qualidade está lá.

Tiago Pinto (Trofense, 21 anos) - O filho de João Vieira Pinto é uma das boas revelações desta temporada. Foi sempre um dos destaques do despromovido Trofense, e agora, apesar de ainda pertencer aos quadros do Sporting, o seu futuro é uma incógnita. Por ser jovem, por actuar numa posição carenciada em Portugal, e por indiscutivelmente poder ter um futuro muito interessante à sua frente, o próximo passo é muito importante. Para se fixar como lateral terá que melhorar aspectos do seu jogo defensivo, mas ofensivamente é já muito forte.

Evaldo (Braga, 27 anos) - Nesta posição o jogador do Braga ganhou a corrida a André Marques do Setúbal e a Sílvio do Rio Ave. Essencialmente por, apesar de a margem de progressão não ser tanta, representar no imediato uma opção mais sólida. A sua temporada é disso prova. Fez praticamente todos os jogos, debaixo de uma regularidade impressionante. Não será 'a opção', mas é sem dúvida um bom jogador.

Nuno André Coelho (Estrela da Amadora, 23 anos) - O jovem defesa central regressa na próxima época ao Porto. Não me espantaria se agarrasse o lugar de Bruno Alves, embora os dragões devam recorrer ao mercado porque mesmo Rolando é de certa forma algo inexperiente. Contudo, passo a passo, não tenho dúvidas que este jovem se vai impor na equipa. Alto, forte no um para um e bom marcador de livres, Nuno Coelho é já um bom jogador.

Sereno (Vitória de Guimarães, 24 anos) - 2008/09 foi uma época madrasta para Sereno. A grave lesão contraída nos dois joelhos só lhe permitiu reaparecer no final da temporada, e também por isso é natural que haja algumas reticências no que toca ao seu futebol. Mas quem pode ver os dois últimos jogos do Vitória, constata que a qualidade está lá intacta, a forma de jogar mais em 'soupless' que fazem muitas vezes lembrar Ricardo Carvalho. Posicionamento, leitura de jogo, velocidade, capacidade na saída de bola. Muito bom jogador.

Maicon (Nacional da Madeira, 20 anos) - O brasileiro venceu a corrida a Diego Ângelo e ao seu companheiro Felipe Lopes. Em relação ao primeiro porque tem maior margem de progressão, em relação ao segundo porque é já mais completo. Tem algumas debilidades naturais de quem vem do Brasil, mas notou-se bastante evolução ao longo da época. Fisicamente é fortíssimo, tecnicamente ainda precisa melhorar, mas o Porto certamente será uma boa escola para o fazer.

Rodriguez (Braga, 25 anos) - O peruano, à imagem de Sereno, não teve uma época famosa, muito graças às lesões. Mas também à imagem do vimaranense, faz parte desta lista pela inquestionável qualidade e capacidade para mais altos voos. Tecnicamente também ele com qualidade, muito forte no desarme, boas características físicas e um preço de mercado que certamente baixou em virtude da menor utilização, são mais valias a seu favor.

Roberto Sousa (Leixões, 24 anos) - O brasileiro emprestado pelo Celta de Vigo é craque. Contudo, há um par de anos ninguém diria que seria emprestado por um clube da 2a divisão espanhola a um clube médio português. Essencialmente porque lhe apontavam um grande futuro. No lado direito do triângulo do meio-campo de José Mota percebeu-se porquê, embora lhe falte alguma regularidade. Que precisa consolidar se quiser alcançar uma equipa mais forte, mas a qualidade de passe, a capacidade de jogar de cabeça levantada e a bom remate são armas importantes para a afirmação.

Adrien Silva (Sporting, 20 anos) - Jogador muito jovem, provavelmente o próximo a explodir saído da Academia de Alcochete. Ainda em período recente fortemente conotado com o Chelsea, Adrien jogou mais esta temporada. Apesar de tudo, pela concorrência e não só, a sua entrada no 11 inicial tem sido gradual. Mas é já um jogador muito interessante, o médio defensivo moderno que não se limita a destruir e a tapar caminhos para a sua baliza, mas é muito capaz no processo inverso, na construção, na cultura de posse, no passe.

Hugo Leal (Trofense, 29 anos) - Luiz Alberto, brasileiro do Nacional, podia fazer parte deste 'plantel'. Mas Hugo Leal é, reconheço, um jogador que me enche as medidas. Apesar de certamente não lamentar tanto quanto ele os caminhos errados que tomou quando mais jovem, e que o impediram de chegar a patamares altíssimos. Ainda assim, aos 29 anos vai passeando classe pelo nosso campeonato, e acredito ainda ser uma boa solução para qualquer boa equipa. A leitura de jogo, a muita inteligência, a qualidade técnico-táctica estão todas lá.

Ruben Micael (Nacional, 22 anos) - Vindo do União da Madeira, através da prospecção nacionalista na Região Autónoma, Ruben Micael era encarado no início da época como um jogador de plantel. Depois de alguns jogos de fora, o passar dos meses veio contrariar essa tese e demonstraram aos 22 anos e primeira experiência na Liga principal, um jogador muito maduro, que joga sempre de cabeça levantada, competente tacticamente e desequilibrador (essencialmente a nível da qualidade de passe) ofensivamente. Um bom reforço para qualquer equipa.

Fábio Coentrão (Rio Ave, 21 anos) - O jovem de Vila do Conde, é a par de Yazalde e Carlos Brito a principal razão da manutenção do Rio Ave. É certo que jogou apenas 6 meses em Portugal, mas a sua preponderância no jogo ofensivo da equipa (marcou mesmo alguns golos), a sua capacidade técnica, a sua juventude, dão-lhe justificadamente um lugar nestas escolhas. Desde que solidificando aspectos mentais, a próxima época (previsivelmente no Benfica) pode ser de afirmação.

Cristiano (Paços de Ferreira, 25 anos) - 10 nas costas, bola no pé esquerdo, muita capacidade técnica, algum individualismo e inconsequência, mas um dos grandes responsáveis pelos objectivos alcançados pelo Paços. Também por esse facto e pela despromoção do Trofense não é Helder Barbosa a figurar na lista. Mas Cristiano, 25 anos, terá ainda de ser mais objectivo se quiser vingar a um nível superior. No resto, qualidade é com ele.

Varela (Estrela da Amadora, 24 anos) - Silvestre Varela está longe de ser um desconhecido para os amantes do futebol português. Saído do Sporting, conta já com passagens pelo Setúbal e Huelva, antes da chegada ao Estrela da Amadora, onde pelo centro ou pela direita, fazendo uso da sua velocidade e técnica, foi sempre um dos principais desequilibradores. A transferência para o Porto é já um dado adquirido, apesar de certamente ir ter algumas dificuldades em alcançar a titularidade. Contudo será concerteza utili para certo tipo de jogos, contando para isso com uma maior objectividade e sentido de baliza, que me fizeram preferi-lo a Djalma.

Urretavizcaya (Benfica, 19 anos) - Veio do Uruguai rotulado de grande promessa, depois de brilhar pelo River Plate de Montevideo. A pré-época deixou boas indicações, mas a forte na concorrência na ala esquerda e a preferência de Quique por maior contenção na direita, aliados aos quase dois meses que passou na selecção, fizeram-no perder o comboio. Que recuperou quando o Benfica já tinha os dois principais objectivos bem longe. Da parte final da época dos encarnados Urreta é a melhor memória, jogando na ala direita, mostrando pormenores interessantes, capacidade técnica acima da média, velocidade e curiosamente um processo decisional mais ou menos bem conseguido. A próxima época pode confirmar o valor que se prevê, e que já atraiu olheiros de Arsenal e Fiorentina.

Nuno Assis (Vitória de Guimarães, 31 anos) - É certo que Assis não é jovem. É certo que já passou em clubes como Benfica e Sporting. E é certo que as suas melhores performances foram em Guimarães. Mas principalmente na Luz, conseguiu grandes jogos quando foi parte importante na conquista do último campeonato. Provavelmente foi incompreendido ou mal aproveitado, a polémica com doping não ajudou. Mas é justo reconhecer que Nuno Assis foi certamente um dos três melhores jogadores da segunda metade do campeonato, catapultando o Vitória para uma melhoria exibicional, através de golos, assistências e da capacidade em fazer jogar a equipa. Por isso não podia ficar de fora desta lista. Certamente que não voltará a um grande português, mas não estou assim tão certo que se o fizesse não tivesse bastante utilidade.

Rui Miguel (Paços de Ferreira, 25 anos) - Este ainda jovem jogador do Paços foi a par de Cristiano, uma das figuras da equipa. Saído da Naval há duas épocas para a Polónia (onde foi campeão ao serviço do Lubin), provavelmente por motivos financeiros, é agora um alvo bastante apetecível para os clubes portugueses, pela capacidade que apresentou na prova. Fortíssimo a nível técnico, com boa capacidade de remate, Rui Miguel jogava no Paços sobre o centro-direita, atrás do avançado. Um médio ofensivo interessante para explodir na próxima época.

Luís Aguiar (Braga, 23 anos) - O urugaio do Braga, que teve um post no Futebol Total há uns meses atrás, foi já transferido para o Dínamo de Moscovo. 3M€ por metade do passe não é propriamente uma pechincha, mas apesar de tudo foi concerteza um investimento com retorno. Aguiar representa mais um caso de um jogador super-desaproveitado pelos grandes portugueses, e que vai jogar na Rússia longe dos melhores palcos. Ainda assim, considero-o de todos os jogadores que não actuam num grande, e mesmo sabendo da sua curta passagem pelo FCP, aquele que actualmente estaria mais preparado para 'pegar de estaca'. Joga com os dois pés, executa muito bem a bola parada, forte na finalização e na construção, participa com qualidade no processo defensivo, nunca desiste de um lance, pode ocupar várias posições no meio-campo. Era preciso mais para jogar no Porto, Benfica ou Sporting? Pelos vistos era...

Nené (Nacional, 25 anos) - Referência incontornável deste campeonato, discute penso com Aguiar o título de mais preparado para jogar num grande. Melhor marcador da prova ao serviço de uma equipa 'não grande' está longe de ser um mau cartão de visita. Se juntarmos a essa marca o facto de os golos serem obtidos de todas as formas - bola parada, cabeça, pé direito e pé esquerdo, e a capacidade e disponibilidade para ser o primeiro defesa da equipa, fazem do brasileiro ex-Cruzeiro um alvo imperdível na relação qualidade-preço para qualquer clube com uma boa gestão desportiva.

Baba (Marítimo, 21 anos) - Um daqueles diamantes africanos a precisarem de ser lapidados, mas já com muito futebol nos pês. Rápido, forte, explosivo, espontâneo no remate, Baba conseguiu esta época uma boa marca a nível de golos, e foi um dos destaques de um Maritimo mediano. Fala-se já em muitos clubes interessados, mas a permanência na Madeira por mais uma época, por forma a ser bem trabalhado por Carvalhal, longe dos holofotes e da pressão dos maiores palcos, será provavelmente uma boa medida. Uma boa promessa nos verde-rubros, ganhando o lugar a Carlos Saleiro, tendo como vantagem o facto de ter iniciado a época na Primeira Liga.

Douglas (Vitória de Guimarães, 23 anos) - William do Paços poderia perfeitamente figurar nesta lista, até porque marcou mais golos que Douglas e porque à semelhança do compatriota teve uma época prometedora destruída por uma lesão. Contudo, o avançado vitoriano cativa-me mais. Tem características físicas muito importantes para um avançado, sendo capaz de segurar a bola com qualidade, ao mesmo tempo que a capacidade de remate é acima da média. O tal instinto matador que diferencia os avançados e que Douglas tem. Dois anos depois, o Vitória tem um sucessor à altura para Saganowski.

Este é obviamente um exercício subjectivo, passível de discussão, mas certamente que um plantel destes daria muito bem conta de si numa competição como a Liga Sagres. Ao mesmo tempo que não duvido que muitos destes jogadores estarão em breve a actuar em patamares superiores ao actual. Todos eles para continuar a seguir com atenção.

Em mais que uma final, 'més que un club'

à(s) 01:41

quinta-feira, 28 de maio de 2009


Quando se diz que este seria, até agora, o jogo mais ansiado do século, não é por acaso. Percebeu-se um pouco isso no jogo de Stamford Bridge entre Chelsea e Barcelona, percebeu-se sobretudo isso na ansiedade, nas expectativas, nos debates que antecederam a partida. Algo natural, até porque não me lembro de um confronto com um cariz tão decisivo, e que reunisse frente a frente duas equipas tão capazes individual e colectivamente. Duas equipas que obtivessem tão bons resultados jogando um futebol tão positivo.

O Manchester consolidou esta época, aquilo que iniciou na transacta. Uma imagem de solidez, de espírito competitivo fortíssimo, uma capacidade de manietar muito bem todos os momentos do jogo, de se moldar tacticamente e de forma eficaz às exigências dos 90 minutos (hoje não foi um bom exemplo), e de ao mesmo tempo praticar um bom futebol, atractivo, técnico, eficaz!
Variando entre o 4x3x3 mais europeu, com Ronaldo no centro e Rooney e Park ou Giggs na ala, à frente de um trio de meio-campo, ou entre um 4x4x2 com Ronaldo e Giggs/Park abertos na faixa e Tevez ou Berbatov a acompanhar Rooney na frente.
Mais uma grande época em Manchester, com jogadores menos capazes individualmente como O'Shea, Fletcher ou Park a alinharem em muitos jogos, e a provarem o excelente trabalho que se faz em Old Trafford. Mesmo depois da subjugação da final, é preciso dar o valor que a equipa tem e que faz dela a melhor das duas ultimas temporadas, com duas finais da Liga dos Campeões, um Campeonato do Mundo de clubes e duas Premier League's conquistadas.

O Barça desta época, é a prova de que um projecto idealista pode resultar, pode fazer os adeptos desta modalidade ter o grande prazer de ver o futebol de rua a dar cartas ao mais alto nível. Um projecto que só resultaria com um treinador como Guardiola, que provavelmente passou os últimos anos afastado dos vícios do futebol actual, em laboratório a congeminar os ensinamentos que recebeu no Dream Team de Cruyff. Mesmo a sua própria forma de jogar, no início da fase de construção, num futebol de régua e esquadro, técnico, preciso, descontraído, mas sempre produtivo.
Um projecto destes só poderia ter sucesso com jogadores como Xavi, Iniesta e Messi. Baixo centro de rotação, físico não muito desenvolvido, a antítese do que dizem ser o protótipo de jogador moderno. Mas e o talento onde fica? Estes jogadores explicam que o talento ainda ocupa o papel principal no melhor futebol. E se o notável crescimento de Piqué, o vaivém ofensivo de Daniel Alves que põe a equipa a jogar muitas vezes em 3x4x3 ou 3x3x4, o pulmão de Puyol, o tampão que Touré e Keita fazem às investidas adversárias, e que hoje Busquets com mais 'soupless' também fez muito bem, o instinto de Etoo e a classe de Henry dão muito ao Barcelona, são os 'três baixinhos' o principal suporte desta forma de jogar. Também por isso, na 2ª mão da meia-final, contra o Chelsea, o Barcelona se ressentiu muito do facto de Iniesta ter sido afastado da fase de construção.
O passe curto, o futebol apoiado, a progressão da equipa sempre com bola nas imediações, as muitas linhas de passe em cada momento, as tabelinhas, as desmarcações, as triangulações - o futebol ideal, o futebol do Barça, o resultado do fantástico trabalho preconizado por Guardiola, que levou os 'culés' à conquista do inédito triplete.

O jogo de Roma, começou com vantagem para um dos 'Gladiadores' - Cristiano Ronaldo. O United entrou fortíssimo, nos primeiros 5 minutos vimos 4 remates muito perigosos do português, e o favoritismo inclinava-se para o MU. Até que ao minuto 10, Iniesta pegou na bola e resolveu, assistindo Etoo para o primeiro golo do jogo. Esse foi o momento chave da final. A partir daí os ingleses tremeram, demasiados passes errados, o sub-consciente que temia o poderio demonstrado pelo Barça ao longo da época, veio ao de cima.
O futebol fantástico dos catalães tomou conta da partida, e no banco do Manchester, Ferguson nunca soube reverter a situação. Piorou-a até, quando se esqueceu de uma das noções básicas do futebol - a de que muitos avançados não significam golos. Especialmente quando se defrontam equipas como o Barça, com o poderio do seu meio-campo. Abdicar de Anderson ao intervalo, sendo o brasileiro o jogador com mais capacidade de pressionar e ter a bola, foi um autêntico tiro no pé, assim como colocar Berbatov antes de Scholes. Tudo isto atenua a exibição do Manchester. Mas a explicação para a vitória tranquila e justíssima do Barça (que penso não espelhar a real diferença entre as duas equipas), está no próprio futebol dos catalães.

A UEFA elegeu Messi como melhor em campo, mas Iniesta foi gigante. Dele um dia Guardiola disse qualquer coisa como 'Não usa gel no cabelo, não aparece nas revistas, não se lhe vêem muitas namoradas, mas em campo é o melhor'. Nunca esta frase foi tão verdade como hoje em Roma. Como nunca um estilo de futebol será tão testado como o do Barcelona na próxima época. Se o Barça continuar a brilhar, como acredito que continue, então podemos assistir a um novo (velho) paradigma no futebolês. O de que, fica mais perto da vitória, a equipa que joga melhor. Assim seja!

A evolução do Shakhtar

à(s) 02:52

quinta-feira, 21 de maio de 2009


O clube ucraniano tem pouco mais de 70 anos de vida. Ainda longe do centenário, ainda longe da grandeza histórica dos rivais de Kiev, onde se destaca o Dynamo. Contudo, desde a virada do século, os 'laranjas' de Donetsk adquiriram um maior protagonismo interno, alargado nas últimas épocas para carreiras interessantes no domínio europeu. Terminaram com a hegemonia do clube da capital, ao mesmo tempo que conseguem já a maior média de assistências do campeonato ucraniano.

Se o maior protagonismo interno foi inicialmente adquirido, como referi, na viragem do século (Taça da Ucrânia em 2001, Dobradinha em 2002), com recurso a jogadores ucranianos (os africanos Aghahowa e Okoronkwo seriam as excepções com maior qualidade), foi a partir de 2004/2005, com a abertura das fronteiras de Donetsk ao mercado brasileiro que o clube deu o grande salto. A nível interno campeonatos conquistados em 2005, 2006 e 2008, Taça em 2008, Supertaça em 2005 e 2008. E a chegada de brasileiros como Elano, Jadson, Matuzálem, Leonardo, Fernandinho, Willian, Ilsinho ou Luiz Adriano. Tudo jovens com grande margem de evolução, e ainda não totalmente preparados para o salto do Brasileirão para os grandes clubes dos principais campeonatos, ao mesmo tempo que apresentam uma qualidade indiscutível.

Na Europa, e depois de carreiras interessantes na Taça UEFA e na Liga dos Campeões, chegou hoje a consagração na UEFA. Sob o comando do competente Mircea Lucescu, o Shakhtar emergiu de um grupo interessante de candidatos onde figuravam nomes fortes como Milan, Valência ou Zenit e interessantes como Bremen, Hamburgo, City, Villa, Tottenham, Udinese, Marselha ou CSKA, entre outros. Nesta competição, que neste formato, teve o seu término em 2008/2009, é difícil apontar o clube mais forte. Essencialmente pelo facto de os treinadores rodarem bastante o onze, privilegiando as competições internas. Apesar de tudo, os ucranianos foram certamente das equipas mais fortes e consolidadas e como tal, a vitória final assenta bem.

Tacticamente a equipa assenta num 4x2x3x1, muito dinâmico. Na baliza Pyatov é um guarda-redes interessante, com bons reflexos e apesar da falha monumental frente ao Bremen, mais forte entre os postes do que fora deles. À sua frente Chygrynskiy é titular indiscutível, o típico central da escola ucraniana, corpulento mas com grande leitura de jogo e forte no desarme, enquanto Kucher e Ischenko discutem a outra vaga. Os laterais são jogadores semelhantes, de muitíssima qualidade e de grande propensão ofensiva. O croata Darijo Srna e o romeno Rat, dois protótipos do lateral moderno.
Á frente da defesa um duplo pivot. Hubschmann mais posicional (castigado na final e substituído por Lewandowski), compensa quase sempre as subidas dos laterais. No papel ao seu lado, mas com incomparavelmente mais liberdade o tecnicista Fernandinho, temível na bola parada, e com grande facilidade de remate. Nas laterais, igualmente dois brasileiros. Ilsinho (lateral de origem mas com grande qualidade técnica) mais vertical na direita, o jovem Willian mais sobre a esquerda, ele que originalmente é uma espécie de 10 à moda antiga, quase sempre em diagonais para o interior do terreno, deixando as costas para as subidas de Rat.
Mais adiantados, os maiores desequilibradores e fazedores de golos: Luiz Adriano mais fixo na frente, entre os centrais. Jadson nas suas costas, numa espécie de 'jogador 9,5', capaz de contribuir com bastantes golos e assistências. Referência ainda para Marcelo Moreno, boliviano vindo do Cruzeiro, que na UEFA jogou pouco, mas com muito futebol nos pés, e uma próxima temporada à espera da explosão no futebol europeu.

Enfim, os ucranianos mantiveram o bom registo dos países de leste na Taça UEFA. Nas últimas 5 épocas, pelo meio da dobradinha do Sevilha, CSKA, Zenit e agora Shakhtar inscreveram o nome na galeria dos vencedores. Para o clube de Donetsk este é o mote decisivo para o estabelecimento de um nome forte e respeitado na Europa do futebol. O grande desígnio do actual presidente - vencer a Liga dos Campeões, pode já ter estado mais longe.

Foi um prazer, Figo.

à(s) 11:32

terça-feira, 19 de maio de 2009


Foi no passado fim de semana, de conquista para o Inter, que um dos melhores e maiores jogadores portugueses de sempre anunciou o final da sua carreira. Luís Filipe Madeira Figo pendura as chuteiras no ano em que completa 37 anos. E o futebol fica mais pobre.

O ainda jogador do Inter, é dos que ficarão para sempre marcados na memória de quem os viu jogar. Especialmente daqueles que, como eu, cresceram idolatrando o seu futebol. E a sua postura fora dos relvados. Em cromos de cadernetas de futebol, em posters gigantes nas paredes do quarto, nos jornais e revistas, na televisão ou no estádio, Figo acompanhou nos últimos 15 anos o imaginário de todos os que gostam de futebol. No Porto ou em Lisboa, em Madrid ou até em Barcelona, em Milão ou em Pequim, não há quem não tenha ficado rendido à sua qualidade.

'Os Pastilhas' formaram o atleta e homem, o Sporting continuou o processo consolidando-o e tornando Figo num grande jogador, de dimensão europeia. Do polémico trio Barcelona-Juventus-Parma em 1995/96 ninguém se esquece, mas foi na Catalunha que Figo se deu a conhecer ao Mundo. Um dos últimos extremos direitos à moda antiga, fazia do pique e da capacidade de driblar os seus principais recursos, antes de chegar à linha e efectuar cruzamentos absolutamente perfeitos que fizeram as delícias de inúmeros avançados. Apesar de se destacar nas assistências, Figo mantinha também uma boa relação com o golo, quer em bola corrida, quer de bola parada - livres e penalties superiormente bem executados.
Nos Galácticos do Real Madrid, após o Verão quente de 2000/2001, Figo foi já um jogador diferente. Menos exuberante, igualmente espectacular e eficaz, o 10 do Madrid tornou-se ali num jogador completíssimo a todos os níveis. Dessa época, e como consequência dessa evolução, o galardão atribuído para melhor jogador do Mundo pela FIFA, foi seu, foi português. Um prémio importantíssimo pouco tempo depois da pior recepção de sempre a um jogador de futebol, em Camp Nou, ao serviço do Real Madrid.
2005, ano final da 'era Galáctica' trouxe-lhe o Inter. Muitos pensaram ser ali, já com 33 anos, o último ano de Figo, cumprido maioritariamente em baixa rotação. Puro engano. Estamos em 2009 e o português olha para a sua carreira em Milão e, embora lhe falte o sucesso europeu alcançado em Barcelona e Madrid, vê um tetracampeonato. Num Inter onde, num trajecto descendente a nível físico, foi encontrando outras posições no campo, menos colado à linha, mais perto da zona central, organizando jogo. Não deixou de ser uma espécie de evolução táctica, que só os muitos anos de futebol permitiram a Figo cumprir com sucesso. Contudo, algo se manteve sempre no seu futebol: a qualidade com que tratava a bola, e a inteligência sempre presente no destino que lhe dava.
Com 127 internacionalizações, 32 golos, momentos inesquecíveis, sucessivos jogos enquanto capitão, Figo foi também figura incontornável da Selecção Nacional Portuguesa. Ao serviço da qual, em 2000, 2004 e 2006 não andou longe da merecida consagração absoluta.

Resumidamente, foi esta a fantástica carreira de Figo dentro das quatro linhas. Tal como fez questão de referir, com uma média de títulos colectivos superior ao número de anos de actividade desportiva. Muito poucos se podem gabar do mesmo. Daqui se percebe a importância deste jogador nas equipas por onde passou. E da inteligência na hora de escolher o seu rumo. Porque também fora de campo Figo foi especial. Uma figura emblemática que ultrapassa e muito o âmbito do futebol, ao qual concerteza ainda terá muito para dar, provavelmente ajudando à reciclagem do nosso dirigismo desportivo.

Num país que tem dificuldades em reconhecer os melhores (Cristiano Ronaldo é o melhor exemplo actual), num país que nunca foi totalmente unânime em relação à figura deste extraordinário jogador, o melhor elogio que se pode fazer é garantir que ele, o eterno 7 de Portugal, discute legitimamente com Eusébio, o epíteto de melhor e maior jogador português de sempre. E que bom sinal quando estas distinções podem ser partilhadas. No mais, o futebol de Figo continuará a viver em VHS, em DVD, no Youtube, ou mesmo num simples cromo de futebol. Eu ainda tenho o meu.

Obreiros do Tetra

à(s) 01:24

terça-feira, 12 de maio de 2009


O Porto materializou ontem, na sequência do que se esperava, a conquista do tetra-campeonato. Sobre o total mérito da conquista já aqui falei no dia seguinte à vitória em Guimarães, e portanto hoje importa-me destacar aqueles que penso serem os dois principais obreiros desta vitória.

É comum dizer-se que as naus precisam de um timoneiro para chegar a bom porto. No futebol não é diferente. Contudo, em algumas equipas, tal a qualidade e maturidade dos jogadores, tal a rotina de bons processos existente, o peso do treinador dissipa-se um pouco. Neste Porto não foi assim. Não que o plantel não seja de qualidade, mas em grande parte dos seus elementos, denotava-se no início da época, que seria precisa muita evolução para que a equipa atingisse os seus objectivos. Rolando, Sapunaru, Cissokho, Fernando, Rodriguez e Hulk são exemplos claros do que falo. No crescimento individual destes elementos, e ao mesmo tempo da equipa, o mérito vai todo para Jesualdo Ferreira (JF).
Não foi uma nem duas vezes que ouvimos o 'Professor' afirmar que no Porto também se faz formação na equipa principal. Mas a formação que assistimos nesta época não foi apenas a nível individual. Foi também no que respeita ao modelo de jogo da equipa, que naturalmente sofreu um abalo com as saídas dos nucleares Bosingwa, Quaresma e Paulo Assunção, e a entrada de jogadores com características distintas. Jesualdo percebeu que não há jogadores iguais e que teria de alterar a forma da equipa jogar, sob pena de os reforços não conseguirem interpretar o modelo da mesma forma. Na capacidade de um treinador perceber os seus activos, o meio envolvente, e conjugando estes factores, a melhor forma de levar a equipa ao sucesso, está grande parte da sua qualidade. JF teve essa capacidade.
Mesmo depois de alguns precalços, mesmo depois de bastante contestação, o Porto manteve fidelidade aos seus princípios, às convicções da sua equipa técnica, e ao mesmo tempo que se readaptavam por exemplo Lucho, Meireles e Lisandro a novas funções, e se assistia ao crescimento dos jogadores acima citados, a equipa retomou o caminho das vitórias. O grande mérito de Jesualdo Ferreira passa por aí, pela competência no processo de treino e de jogo, e pela inteligência que lhe permitiu encaixar-se bem no clube, obtendo um lugar de destaque. Numa época em que foi tri-campeão, atingiu a final da Taça, e os quartos de final da Champions, o reconhecimento (tardio) da esmagadora maioria dos adeptos chegou. Na próxima época, deverá continuar.

Helton, Sapunaru, Rolando, Bruno Alves, Cissokho e Fernando. Uma equipa desempenha tarefas conjuntas nos cinco momentos do jogo, mas estes jogadores formaram em muitas partidas, o grupo com maiores responsabilidades defensivas. Se exceptuarmos a baliza, apenas Bruno Alves jogava no Porto na época passada. Todos os restantes elementos actuavam em clubes ou campeonatos de menor exigência e responsabilidade. Se falo de JF como parte integrante para o crescimento da equipa, dentro do campo Bruno Alves era a sua extensão. Não raras vezes vimos o central portista em diálogo com os companheiros de sector durante as partidas, corrigindo acções ou posições. Uma voz de comando dentro de campo, e talvez o jogador expoente de Jesualdo Ferreira, por ser aquele que mais cresceu com o treinador. Passado de mal-amado entre os adeptos a um dos capitães de equipa, pretendido por meia Europa, Bruno Alves é também o marcador do golo do tetra.
Pelas suas qualidades como central, pela importância que tem dentro da equipa, pelo seus golos fundamentais (Sporting e Nacional são dois exemplos fortíssimos), destaco-o como o jogador do ano no Porto. Mesmo que Lisandro e Lucho sejam (acredito que a par do melhor Aimar) os melhores jogadores a actuar em Portugal, mesmo que Meireles tenha crescido imensamente, mesmo que Hulk seja um vulcão futebolístico prestes a explodir. Mesmo assim, penso no Porto vencedor do campeonato e vejo Jesualdo Ferreira e Bruno Alves.

A próxima época está já a caminho, e com ou sem Bruno Alves, com ou sem JF, o Porto parte já um passo à frente da concorrência. A equipa é jovem e tem margem de crescimento, os processos estão identificados e bem definidos, e a estabilidade é uma imagem de marca. Além disso, um título deixa-nos sempre mais perto do próximo. Principalmente quando existe uma superioridade inequívoca. Foi o caso.

Vitória do futebol?

à(s) 02:27

quinta-feira, 7 de maio de 2009


Tinha-o aqui escrito, a primeira mão das meias finais, tinha deixado bastante a desejar. Também no jogo de Manchester, mas principalmente no de Barcelona. A estirpe desta competição, a qualidade das equipas, dos seus jogadores, dos seus técnicos fazia-nos esperar muito mais. Não foi bem assim, mas apesar de tudo viu-se muito mais futebol e emoção do que há uma semana atrás.

Arsenal x Manchester Utd - Em Londres esperava ao Arsenal uma tarefa hercúlea, mas não impossível. Apesar de tudo, defrontar o Manchester Utd, que além de fortíssimo a defender tem jogadores perigosíssimos para jogar em contra-ataque, com uma desvantagem de 0x1 era difícil. As ausências de Gallas, Clichy ou Arshavin não ajudavam.
No entanto, alertei há uns tempos atrás para o facto de o Arsenal ir crescer bastante como equipa no último terço da temporada, alicerçado no regresso pós-lesão de muitas das suas grandes figuras. A verdade é que esta jovem equipa ainda não foi suficiente para o Manchester, e o que se viu ao longo de 180min foi ainda uma grande diferença de qualidade. Além de processos de jogo, de opções ou não estivessem no banco do Arsenal Fabianski, Silvestre, Eboué, Denilson, Diaby, Vela e Bendtner ao passo que no do Manchester, ao lado de Alex Ferguson se sentavam Kuszsack, Evans, Rafael, Scholes, Giggs, Tevez e Berbatov.
No mais, foi um Arsenal diferente da primeira mão. A entrada de Van Persie para o lugar de Diaby permitiu à equipa jogar no esquema que mais gosta, o 4x4x2 clássico, com Van Persie a baixar muitas vezes entre linhas, para as costas de Adebayor. Ferguson tambem alterou, para um 4x3x3 com Rooney e Park nas alas, Ronaldo na frente e Anderson, Fletcher e Carrick no meio-campo.
A estória do jogo quase se resume ao impacto do primeiro golo no jogo, à extraordinária partida de Ronaldo, à superioridade do trio de meio campo do United sobre Fabregas e Song, à fantástica competência defensiva de Ferdinand e Vidic e à constação de que o MU é de facto uma equipa especial e que o Arsenal ainda precisa de crescer para se bater a este nível. Ronaldo foi o melhor em campo, ao passo que do lado do Arsenal apenas Van Persie mostrou argumentos para incomodar o Manchester.

Chelsea x Barcelona - Stamford Bridge completamente cheio, muita gente com o 4x4 com o Liverpool na mente, pensando que o jogo de Barcelona tinha sido uma espécie de equívoco. A verdade é que o 11 inicial de ambas as equipas, fazia antever que se assistiria a um jogo melhor, mais aberto, sem complexos de inferioridade. O Chelsea porque preferiu Anelka a Obi Mikel, o Barça porque estava desfalcado de Marquez, Puyol e Henry (que são factos que convém não esquecer).
Teorizando, poder-se-ia antever que o primeiro golo traria indícios muito precisos sobre o apurado. Porque o Chelsea se marcasse primeiro poderia baixar as linhas e jogar como preferia frente a este Barça, porque o Barcelona se marcasse primeiro poderia aproveitar como tão bem sabe o espaço que o Chelsea seria obrigado a dar. Marcou o Chelsea, colocando-se em vantagem na eliminatória. As linhas dos blues baixaram muitos metros, quase sempre com 10 jogadores atrás do meio-campo, sem espaço para os blaugrana praticarem o seu futebol. Pelo contrário, o Chelsea foi sempre perigoso no ataque, com Drogba a assumir um papel de destaque. O jogo desenvolveu-se quase sempre nesta toada, espanhóis com pouco espaço para explanarem o seu melhor futebol, ingleses quase sempre melhores e mais perigosos ao longo dos 90 minutos. Até aos 93 minutos de jogo, com o golaço de Iniesta, que não quis ficar atrás do grande pontapé de Essien.

Uma palavra para os treinadores. Hiddink velha raposa, é um mestre do jogo, Pep Guardiola, é na sua época de estreia uma confirmação, que colocou uma equipa a jogar o futebol mais espectacular dos últimos anos. Contudo, no domínio da intervenção no decorrer do jogo, não me parece terem estado tão bem.
Guardiola porque demorou demasiado tempo a perceber que, na ausência de Henry, e perante jogo tão apagado de Busquets, ao mesmo tempo que Iniesta demonstrava ser o jogador mais interventivo da equipa, seria uma boa opção puxar o baixinho para o meio-campo onde o Barça estava com tanta dificuldade em contruir jogo, substituindo Busquets por Bojan. Hiddink porque com 70 minutos de jogo, uma superioridade inequívoca e mais um jogador em campo, aproveitou alguma inferioridade física de Drogba para o substituir por Belletti. Ultra-conservadorismo, especialmente quando havia Kalou no banco, fortíssimo em contra-ataque e com Keita adaptado a lateral-esquerdo. O holandês que estudou tão bem o Barça, esqueceu-se de uma coisa: estes culés, podem sempre e em qualquer circunstância marcar um golo. Hiddink podia ter-se precavido tentando forçar o segundo. Não pensou assim, saiu. Foi Guardiola quem, onde Mourinho foi feliz, fez de Setubalense, e encetou um sprint ao longo da linha lateral, festejando o golo de Iniesta (melhor em campo a par de Essien).
No cômputo geral, a eliminatória foi equilibrada. Bastante melhor o Barcelona na primeira mão, bastante melhor o Chelsea hoje. Obviamente que é impossível passar ao lado da arbitragem, mas se há, no máximo 3 penaltys não assinalados a favor do Chelsea (coisa nunca vista e impensável a este nível), na eliminatória houve também prejuízo para o Barcelona num penalty sobre Henry e numa expulsão perdoada a Ballack na primeira mão e numa má decisão do árbitro ao expulsar Abidal na segunda. Assim, por tudo isto, é difícil encontrar justiça no apuramento de alguma das equipas. Na Hora H, acredito que tenha vencido o futebol.


A 27 de Maio encontram-se em Roma as duas equipas que praticam um futebol mais atraente. Aquelas que são mais capazes de trazer novos adeptos à modalidade, ao mesmo tempo que renovam o gosto dos que já são 'aficionados'. É provavelmente a Final mais ansiada que tenho memória, e sem dúvida será um espectáculo a não perder. Um palpite? Já o digo desde o início da época - Manchester United. Mas se for o Barça, o futebol agradece na mesma.

Jogadores revelação da Premier League

à(s) 01:48

segunda-feira, 4 de maio de 2009


Aquela que, no cômputo geral, é provavelmente a melhor Liga do Mundo aproxima-se do fim. As posições estão mais ou menos clarificadas, o título para o Man Utd, os lugares da Champions para o Big Four, a UEFA para Everton, Aston Villa e um terceiro clube entre City, West Ham e Fulham. A despromoção é um cenário cada vez mais real para WBA e Middlesbrough, ao mesmo tempo que Hull City, Sunderland e Newcastle fogem à última 'vaga'.
O defeso está a chegar com as ofertas mirabolantes, as trocas de jogadores entre clubes concorrentes, tudo o que torna o mercado inglês um dos mercados de transferências mais peculiares. Na boca de muitos treinadores, na lista de muitos empresários, estarão muitos dos jogadores revelação desta época.

Denilson
- não foi a primeira época de Arsenal. O jovem brasileiro já fazia parte dos quadros da turma de Wenger há algum tempo, mas foi este o ano da sua afirmação. Teve como principal desígnio substituir Gilberto Silva, depois de um defeso em que o Arsenal procurou sem sucesso, um pivot defensivo. E a sua época foi bastante bem conseguida. Competente na cobertura defensiva, dá qualidade à equipa na saída para o ataque, e contribuiu decisivamente com algumas assistências. Ao lado de Fabregas, o rendimento de Denilson foi muito positivo.

Ashley Young e Agbonlahor
- residiu no Aston Villa a sociedade mais entusiasmante na primeira metade da Premier League. Estes jovens ingleses, rápidos, técnicos e explosivos conduziram o Villa a uma luta bem real pelo apuramento para a Champions, que o Arsenal enterrou quando o campeonato se aproximou do fim. Ainda assim nada apaga a carreira destas duas promessas reais, desequilibrando o adversário essencialmente em velocidade. Apesar de tudo são diferentes, Young mais técnico sobre a ala, Agbonlahor mais forte em frente à baliza, aparece mais no meio. A próxima época, provavelmente ainda no Villa, será a da confirmação, ao mesmo tempo que a Selecção Inglesa será um cenário cada vez mais constante.

Taylor e Davies
- Se falei de uma sociedade interessante na primeira metade da época, Matt Taylor e Kevin Davies representam uma das mais interessantes no terço final, ao serviço do Bolton. Apesar de não serem propriamente jogadores revelação, atingiram níveis qualitativos bastante elevados, provavelmente mais do que o que seria expectável. Kevin Davies fortíssimo dentro da área, essencialmente de cabeça. Matt Taylor, temível nas bolas paradas, lateral de origem, com um bom pé esquerdo que lhe permitiu avançar no terreno e ter mais oportunidades de visar a baliza. Foram os golos destes dois homens que permitiram ao Bolton fugir da linha de água e à perspectiva (por altura do Natal muito real) de despromoção.

Baines e Fellaini
- Num Everton cada vez mais sólido e constante e superiormente bem orientado por David Moyes, Leighton Baines e Marouane Fellaini são as faces do novo futebol da equipa. Um acréscimo de qualidade para acompanhar os já interessantes Jagielka, Lescott, Arteta, Cahill ou Yakubu. 2008/2009 foi já a segunda época para Baines, vindo do Wigan, mas foi apenas a partir de Dezembro que o lateral esquerdo se afirmou. Competente a defender, muito bom a atacar, Baines é hoje, depois de Ashley Cole, o melhor lateral esquerdo inglês.
A tarefa de Fellaini não era fácil. Grande revelação do campeonato belga, chegou ao Everton por um valor muito próximo dos 20milhões de euros, e tinha como companheiros de meio-campo Arteta, Cahill, Phil Neville, Pienaar ou Leon Osman. Contudo, o belga agarrou o lugar, num estilo técnico e robusto, mas capaz de contribuir com muitos golos para a equipa. Sinal muito positivo para esta primeira época de Premier League.

Turner
- Num Hull City que inicialmente foi a grande surpresa do campeonato, e que actualmente luta para não descer, Michael Turner foi a par de Geovanni, a grande figura da equipa. Central tipicamente inglês, com boa leitura de jogo, forte no jogo aéreo e perigoso nas bolas paradas ofensivas, o jovem inglês na próxima época concerteza dará o salto para um clube de maior dimensão.

Skrtel
- O Liverpool tem um bom lote de centrais. Embora nenhum seja verdadeiramente de top, Carragher, Agger, Hyppia e Martin Skrtel dão tranquilidade a Benitez no centro da defesa. O eslovaco, chegado do Zenit no mercado de transferências do Inverno de 2008, conquistou esta época o lugar ao lado do capitão Carragher, deixando Agger e Hyppia com pouco espaço de manobra. Rápido, forte no um para um, de processos simples, Skrtel fez uma boa época em Inglaterra.

Ireland
- O irlandês do City é uma das grandes figuras do Campeonato. No 4x2x3x1 do City desempenha com qualidade quer o lugar de médio de transição quer o lugar de médio mais ofensivo. Apesar de tudo, é como médio de transição, vindo de trás, que Ireland melhor expressa o seu futebol. Sempre com grande qualidade na posse de bola, fortíssimo em movimentos verticais, Ireland aparece inúmeras vezes em situação de remate, e consegue muitos golos devido a essa capacidade. Será sem sombra de dúvidas, uma das grandes figuras do novo City.

Rafael da Silva
- o jovem brasileiro que Queirós tenta seduzir para jogar por Portugal, é um jogador com muito potencial. Se no início da época se questionou bastante o facto de Ferguson não reforçar o lado direito da defesa, as prestações de Rafael deixaram claro que será ele o futuro dono do posto. Nesta primeira época, o dedo de Ferguson percebe-se pelo facto de a sua aparição no onze titular ser criteriosa e gradual, lutando pelo lugar com Brown, Neville e O'Shea. Contudo, nenhum destes terá já a qualidade de Rafael, que embora de baixa estatura e ainda com algumas limitações a nível de posicionamento, demonstra já inúmeras qualidades. Técnica apurada que lhe permite sair a jogar pela lateral, boa capacidade de cruzamento, rapidez na recuperação defensiva são as suas principais marcas.

Lennon e Modric
- O Tottenham tem grandes valores individuais e no início da época havia muitas expectativas em White Hart Lane. Apesar de tudo, só após a troca de Juande Ramos pelo 'dinossauro' Redknapp é que a equipa conseguiu bons resultados. Para esta evolução, muito contribuíram os alas do 4x4x2 de HR: Aaron Lennon e Luka Modric. O croata cumpre a sua primeira época em Inglaterra e chegou ao Tottenham depois de um excelente Europeu. A fase inicial, jogando mais sobre a zona central foi de difícil afirmação, mas nos últimos tempos, partindo da esquerda, em movimentos interiores, fazendo uso do seu drible curto, da sua excelente capacidade de passe, tem feito grandes jogos.
De Lennon direi sem pestanejar, que é o jogador mais entusiasmante do último terço de Premier League. Com uma rapidez impressionante, sobre a direita, em drible curto ou ultrapassando os adversários em velocidade, Lennon é um quebra cabeças para os defesas adversários. Fortíssimo no contra-ataque, bom nos cruzamentos, o jovem inglês tem um números impressionantes nos últimos 10 jogos: 3 golos, 5 assistências, 4 vezes melhor em campo. Passam muito por estes dois jogadores as perspectivas de sucesso do Tottenham na próxima época.

Brunt - Este jovem médio norte irlandês, jogando na ala ou mais atrás do ponta de lança, tem sido também ele, uma boa surpresa. Com 8 golos marcados ao serviço do último classificado, na época de estreia no principal campeonato inglês, Brunt certamente não ficará mais tempo no WBA. As suas características que se distinguem pela finta curta e pela grande inteligência na ocupação dos espaços, pedem uma melhor equipa.

Carlton Cole
- o 12 do West Ham não é propriamente um desconhecido. Aos 25 anos conta já com passagens por Chelsea e Aston Villa, mas, 9 golos e 5 assistências para golo, ao serviço dos londrinos, numa época que para ele terminou em Março, são de assinalar. Com 1,91 é o típico ponta de lança do velho futebol inglês, embora curiosamente seja mais forte a jogar com os pés.

Zaki e Valencia
- O egípcio foi um dos grandes destaques individuais da primeira metade da época. Um bom avançado, que recua para receber a bola e não se limita a recebê-la perto da área. E muita facilidade de remate. Contudo, se, ao serviço do Wigan, 10 golos até Dezembro são uma marca excelente, o facto de não ter festejado qualquer um em 2009 merece um acompanhamento mais cuidado. A qualidade está lá, o lado psicológico parece não acompanhar.

O equatoriano Valência, foi um dos destaques já na época passada. Esperar-se-ia uma subida de rendimento na actual, mas tal não aconteceu. O nível manteve-se, e talvez o destaque aqui dado seja errado, mas o potencial e muitos bons momentos proporcionados pelo extremo direito fazem-me escolhê-lo. Quem sabe se não precisa do salto para explodir.

Mais futebol meus senhores!

à(s) 02:36

quinta-feira, 30 de abril de 2009


Quando as melhores competições atingem a recta final, quando o melhor futebol se defronta na relva ao longo de 180 minutos, quando há incontável talento por cada metro quadrado de relva, os cuidados aumentam. Os técnicos, os jogadores, sabem que um simples erro pode deixar demasiado longe o objectivo de uma época, para alguns o sonho de uma carreira.
Em parte, foi esse o pensamento que inundou a mente de Hiddink e Wenger, treinadores de equipas que visitavam adversários teoricamente mais fortes. Um pensamento que não beneficia o melhor futebol, mas que não pode ser censurável, até porque foi a melhor forma que encontraram de manter em aberto a eliminatória. Vamos por partes.

Barcelona x Chelsea - Um Camp Nou com 100 mil pessoas esperava as equipas. Meia-final da Champions, um Chelsea acabado de eliminar o Liverpool num jogo de loucos, um Barça portador do futebol que traz adeptos à modalidade, que nos cola ao sofá. De um lado o metódico, o sonhador Guardiola. Do outro 'a raposa' Hiddink. Messi e Xavi, Drogba e Lampard.
O treinador holandês sabia o que o esperava. A Catalunha foi esta época um autêntico pesadelo para as equipas que por lá passaram. Especialmente quando defrontava aqueles que em teoria seriam melhores, o Barcelona motivava-se a níveis altíssimos. Atlético de Madrid, Sevilha, Valência, Lyon ou Bayern foram vergados a pesadas derrotas.
O Chelsea tem um plantel, e um estilo de jogo que não lhe permitem grandes transições rápidas. A estratégia seria ocupação perfeita dos espaços, saída para o ataque por Drogba, esperando subida da equipa. A primeira premissa resultou, a segunda não. Mérito do Barça. Explicação também pelo alinhamento do Chelsea, que transformou o 4x3x3 habitual num 4x5x1 com Ballack e Mikel à frente da defesa, Essien e Malouda fechando nas alas, Lampard perdido no centro, demasiado longe de Drogba. Natual, Lampard não é jogador para o aquele futebol. Apesar de tudo, não censuro Hiddink. Foi a melhor forma que o holandês encontrou para manter a eliminatória em aberto. Conseguiu-o.
O Barcelona encontrou pela primeira vez nesta época, uma equipa capaz de travar o seu futebol. Sim, é certo, não ganhou sempre. Mas em todas essas partidas, percebeu-se que o jogo continuava fluído, chegando perto da baliza contrária. Contra o Chelsea não. As tabelas, os passes de ruptura, as fintas, as mudanças de velocidade, o jogo apoiado e de pé para pé esbarraram quase sempre na muralha azul. Com o 4x3x3 habitual e Abidal na esquerda em detrimento de Puyol, pensar-se-ia que o Barça poderia fazer mais uso do jogo exterior, mas Essien foi um monstro, pelo que Daniel Alves era o único jogador capaz de dotar a equipa dessa alternativa, conciliando-a com o seu poderoso jogo vertical, e com as diagonais dos seus avançados. Foi contudo insuficiente para desmontar a teia do Chelsea. Mais ainda, para levar de vencido aquele adversário, Guardiola precisaria de ter todos os seus jogadores inspiradíssimos. mas a noite não foi a melhor para Henry e Messi, dois dos potencialmente maiores desequilibradores.
Individualmente, destaco Dani Alves e Touré do lado do Barcelona, Terry e Essien do lado do Chelsea. Dois defesas, dois médios mais defensivos, explica bem o que foi o jogo. Embora o brasileiro receba destaque pelo facto de ser, a par de Iniesta, o maior desequilibrador em campo. Bosingwa é fortemente elogiado por ter parado Messi. Mas o português fez uma exibição à imagem da equipa. E teve a sorte de nunca ter sido exposto em demasia a duelos individuais. Ainda assim, ponto muito positivo.
A segunda mão em Stamford Bridge será diferente. A eliminatória decidida em 90 minutos e espero um Chelsea mais afoito ofensivamente, o que à partida indicará um jogo mais aberto. Golos e muita intensidade, ingredientes expectáveis para de hoje a oito dias.

Man Utd x Arsenal - Em Old Trafford o primeiro de três confrontos entre Red Devils e Gunners, no próximo mês. Todos eles, assentes em bases diferentes. O de hoje seria naturalmente aquele em que o Arsenal jogaria mais recolhido. Direi contudo, que em demasia.
Parece-me que o Arsenal tentou ser uma equipa à imagem do Chelsea em Camp Nou. Contudo, Wenger tem à sua disposição um conjunto de elementos que lhe permitiriam fazer um jogo diferente, especialmente a nível ofensivo. Walcott, Fabregas e Nasri estiveram sempre muito presos a amarras tácticas, e a própria opção por Diaby em detrimento de Denilson ajuda a explicar o pensamento de Wenger. Mais contenção, mais músculo, menos fantasia ou qualidade de passe. Parece-me um erro. O Arsenal teve uma produção ofensiva nula, e defensivamente nunca conseguiu a competência do Chelsea. O ox1 é um resultado lisonjeiro, Almunia e a barra explicam-no muito bem.
Frente ao 4x2x3x1 do Arsenal, o 4x3x3 europeu do Manchester, que Ronaldo e Rooney sabem também transformar em 4x5x1, em determinados momentos do jogo. O certo é que nos grandes jogos europeus, Ferguson não prescende do trio de meio-campo na zona central, abdicando do seu 4x4x2 mais de consumo interno. Hoje, com Scholes e Giggs no banco, foram Carrick, Fletcher e Anderson a jogar. O inglês mais no miolo, essencialmente posicional, o escocês e o brasileiro a soltarem-se mais no ataque. O Manchester controlou sempre o jogo, ao mesmo tempo que o dominava. Alguma inépcia dos seus avançados, somada à grande exibição de Almunia, explicam que não tenha deixado a eliminatória muito perto da resolução.
Individualmente, a somar ao referido Almunia, parece-me justo distinguir o jovem Alexandre Song, por ter realizado uma das melhores exibições da equipa, numa zona onde os Gunners tiveram sempre dificuldades. No MU, o grande destaque vai para o colectivo, pela grande exibição. Compacta, confiante, personalizada em todos os momentos do jogo.
A 2a mão, um pouco à imagem do confronto de Stamford Bridge, trar-nos-á potencialmente mais golos. Um Arsenal que sabe jogar bom futebol, à procura do golo e um Manchester temível no contra-ataque.

Uma última nota. Camp Nou e Old Trafford. Meias-finais da Liga dos Campeões. Artistas como Xavi, Iniesta, Messi, Henry, Etoo, Lampard, Drogba, Ronaldo, Tevez, Rooney, Berbatov, Fabregas, Walcott, Adebayor. Quem foi o único jogador a balançar as redes nesta meia-final? John O'Shea. Tem o que se lhe diga...Que para a semana seja diferente!

Não aos emprestados!

à(s) 02:18

terça-feira, 28 de abril de 2009


Os jogadores emprestados sempre estiveram envoltos em muita polémica. Por todas as razões. Porque se jogavam contra o seu 'clube-mãe' as suas performances eram questionadas. Porque se marcavam um golo a esse mesmo clube ou realizavam uma grande exibição, a verdade desportiva estaria pretensamente adulterada, porque o emprestado contribuía para um resultado menos positivo do clube que lhe pagava pelo menos parte do salário. E porque se não jogassem estariam a enfraquecer o clube que defendiam na época em questão. Porque serão à partida mais valias que dotam a equipa de soluções importantes e que não jogando, as privam de rotinas adquiridas ao longo da época.

Pela última razão, regulamentou-se que, aquando da celebração do contrato de empréstimo, não seria permitido impedir o jogador de defrontar o seu 'clube-mãe'. Contudo, hoje em dia continuam a assistir-se a demasiadas coincidências para acreditar que não existam acordos ocultos sobre esta matéria.
A solução para uma prova mais justa e competitiva passa pelo impedimento dos empréstimos entre clubes da mesma divisão. Assim fosse, as constantes desconfianças seriam evitadas. Sobre a performance dos jogadores, sobre a veracidade de determinadas lesões, mesmo sobre opções de treinadores.

O próprio processo de empréstimo é revertido de alguma concorrência desleal, que deve ser banida. Vejamos na óptica dos clubes mais pequenos: regem-se por orçamentos restritos, curtos, decorrentes de gestão apertada, de resultados desportivos anteriores, de melhores encaixes financeiros decorrentes das vendas. Contudo, alguns deles conseguem, através de relações privilegiadas com clubes maiores, chegar a jogadores pretensamente com maior qualidade, colocando-se em teoria, num patamar qualitativamente superior ao dos adversários mais directos. Sem méritos desportivos ou de gestão, aparentes.

Empréstimos de jogadores são um processo demasiado nebuloso. Eles serão importantes para os jogadores mais jovens, no sentido de transitar das camadas jovens para o futebol profissional, mas nesse caso, uma divisão inferior será suficiente. Vejamos os casos de sucesso de Pereirinha, Miguel Vítor ou Miguel Veloso por exemplo.
Aliás, este tipo de medida restritiva potencia uma melhor gestão, e um maior cuidado no recrutamento de activos. E mesmo dois, três, quatro excedentários podem ser com maior ou menor facilidade colocados noutro campeonato. O Braga fê-lo com Linz, o Porto colocou Pitbull e Paulo Machado, o Benfica Sepsi e Adu.
Mais do que isto, é criar condições para alguma falta de transparência e para relações pretensamente ocultas que em nada beneficiam o futebol. A Liga deveria estar atenta.

Adriano, o Imperador

à(s) 02:08

segunda-feira, 27 de abril de 2009


O apelido já o acompanhará até ao fim da carreira, aconteça o que acontecer. Adriano é o Imperador porque domina. Mas esse domínio não é o domínio comum ao jogador 'normal', quando recebe a bola de um companheiro. O melhor Adriano era aquele que dominava a bola, a equipa, o adversário, o próprio jogo. Por isso o 'Imperador'.
O avançado brasileiro explodiu quando Ronaldo, 'o fenómeno', atravessava um período de menor fulgor. O futebol precisava de um novo monstro, se chegasse do Brasil melhor. Adriano justificava o epíteto e a expectativa. Chegado ao Inter, oriundo do seu Flamengo, com 19 anos e depois de uma grande época no 'Mengão', a sua primeira época na Europa foi difícil. Natural, porque o Calcio não será o melhor habitat para um jovem brasileiro explodir na sua primeira época europeia. Fiorentina primeiro, Parma depois acolheram Adriano e o que se viu foram golos e grandes exibições. O potencial tinha-se confirmado, o futebol do brasileiro precisava de se afirmar numa equipa de primeiríssima linha, o regresso ao Inter foi algo natural.

No regresso, as duas primeiras épocas no clube foram excelentes. Para sua infelicidade, Adriano encontrou um Internazionale transformado numa verdadeira sociedade das nações. E que qualitativamente não fazia jus à história do clube. Contudo, o brasileiro explanou o seu melhor futebol, tornando-se na estrela da equipa. Robustez física, fortíssimo em espaços reduzidos, uma técnica muito apurada e um remate destruidor com o pé esquerdo. A média de golos situava-se em números elevados, e a equipa girava muito à sua volta. Porque além de balançar as redes adversárias, o 10 era mestre em assistir para golo ou em segurar jogo, esperando pela subida dos companheiros.

2006 foi o ano negro, que representou a viragem entre o fantástico Adriano e aquele que só apareceu a espaços. A sua capacidade psicológica foi insuficiente para aguentar a trágica morte do pai. A péssima performance do Brasil no Mundial 2006 tornou-o num dos bodes expiatórios, por ser um dos jogadores em que os adeptos depositavam maiores esperanças. E o seu futebol atingiu um ocaso, o qual Roberto Mancini foi incapaz de ajudar a ultrapassar. A partir dessa época, o melhor Adriano pouco se viu. Pouquíssimos jogos em Itália, chegando aliás a ser emprestado ao São Paulo, numa metade de época sabática, quase em reabilitação, sem realizar qualquer jogo oficial. Em toda a carreira, foi na Selecção Brasileira que se deu melhor. No 'Escrete' conserva uma média de golos superior a meio por jogo. A explicação talvez seja simples, é no gramado brasileiro, rodeado de 'brincas na areia' por todos os lados, que o Imperador se sente mais perto da favela brasileira, do futebol de rua.

2008/2009 seria a época que todos esperavam como a do seu regresso à melhor forma. Ou não fosse treinado por José Mourinho. A verdade é que esta foi desde início uma relação complicada, com demasiados altos e baixos. O melhor Adriano viu-se pouco, e mesmo a capacidade técnica parece ter saído afectada pelo alheamento do jogo constante que o brasileiro demonstrava. Os mísseis saídos do pé esquerdo viram-se menos, por consequência os golos também.
O início de Abril foi fatídico no que diz respeito à sua carreira no Inter. A recusa em voltar a Itália, depois de um jogo da Selecção brasileira. A confirmação de que nem Mourinho tinha conseguido fazer o jogador reentrar nos eixos do total profissionalismo. E a rescisão de contrato no dia 24 de Abril. Uma perda imensa para o futebol europeu.

Adriano transportou para o discurso e para as atitudes, parte daquilo que o seu futebol tinha de melhor. A descontracção, alguma irresponsabilidade, o risco. O seu comportamento não se coaduna com o de um jogador profissional. Mas estou longe de o censurar. O brasileiro foi atrás da sua felicidade. E ela está na favela, no calor, no calção largo, na cerveja, no churrasco. E no meio de tudo isto, nas partidas de futebol profissional, algures nos campos brasileiros. Por isso não duvido que o melhor Adriano vai regressar. Seja no imediato no Brasil, ou futuramente, se sentir a falta de maior competitividade, num país mais latino como Espanha, quiçá Portugal.
A verdade é que em toda esta estória, há um lado positivo. Num futebol cada vez mais robotizado, numa indústria cada vez mais sedenta de ídolos, num mundo por vezes excessivamente competitivo e enganador, Adriano mostra a muitos jovens que a felicidade, a realização, podem estar noutro lado, numa outra forma. Porque existem cada vez mais miúdos perdidos por uma ilusão que não se tornou em tudo o que esperavam, que não conseguem alcançar. O futebol não é só os milhões, as capas de jornal e revistas, a fama, a exposição. Ele pode ser só um jogo de rua, um estado de descontracção. Adriano é a prova.

O Paços de Paulo Sérgio

à(s) 02:41

quinta-feira, 23 de abril de 2009


Quando o sorteio das meias-finais da Taça de Portugal ditou os confrontos entre Porto e Estrela da Amadora, e entre Nacional e Paços de Ferreira, o mundo do futebol pensou que, com maior ou menor dificuldade, os finalistas estariam à partida encontrados. Seriam FC Porto e Nacional da Madeira os intervenientes desta época no espectáculo do Jamor (e sim, apoio e apoiarei o Estádio Nacional como melhor local para se realizar a Final, ontem, hoje, provavelmente amanhã).
O futebol é uma caixinha de surpresas e o potencialmente melhor preparado Nacional foi surpreendido em plena Choupana por um Paços de Ferreira que pela primeira vez ao longo da actual época respira no campeonato com alguma tranquilidade.

A equipa sofreu de dores de crescimento ao longo de quase toda a época. Afinal, sofreu uma transição de treinadores com métodos e formas de pensar bastante diferentes. Saiu José Mota, homem da casa, e com obra feita no clube, chegou o promissor Paulo Sérgio, ex-jogador do Paços e ex-treinador do Beira-Mar.
De facto foram inúmeras as críticas ao jovem técnico. O Paços perdeu por 6 vezes nas primeiras 7 jornadas, provavelmente por alterar em demasia a forma de jogar, de partida para partida, mais em função do adversário, e das exigências que cada jogo previsivelmente traria. De facto, é difícil compreender e vai contra todas as 'regras' do futebol promover tanta rotatividade entre sistemas, que era o que acontecia no Paços, algures entre o 3x5x2, o 4x3x3 e o 4x2x3x1.
Actualmente, Paulo Sérgio já não o faz. Tem um sistema base - o 4x3x3 e promove algumas nuances de acordo com o adversário, ora interiorizando mais os extremos, ora jogando em duplo pivot defensivo, ora utilizando uma frente de ataque mais móvel. A base, contudo, mantém-se. E o facto de os melhores resultados aparecerem na fase terminal da época, quando os jogadores melhor assimilaram este conceito, não será de estranhar. Mérito também do treinador, jovem português com qualidade e margem de progressão. E muito importante, privilegia as boas ideias, o futebol positivo.

Nas quatro linhas, é na defesa que mora o ser o sector mais frágil da equipa. Na baliza, a herança deixada por Peçanha era enorme. Cássio é um bom guarda-redes, mas capaz do melhor e por vezes do pior, deixando a equipa algo insegura. À sua frente, Ricardo, central de raiz, ocupa mais frequentemente o flanco direito da defesa, desde que Ferreira subiu para o meio-campo. À esquerda, Jorginho chegado no Inverno, dá muita qualidade à equipa, forte a defender, forte a atacar. No centro da defesa Danielson e Kelly fazem uma dupla razoável, algo normal, porque o brasileiro chegou apenas em Janeiro e o francês é lateral esquerdo de origem.
É no meio-campo que reside a maior riqueza de opções no Paços. Paulo Sousa, Pedrinha, Dedé, Filipe Anunciação e o referido Ferreira conferem segurança defensiva, apesar de Pedrinha ser de todos o mais dotado tecnicamente, o mais criterioso na posse de bola. Depois, Rui Miguel e Cristiano, um português e um brasileiro, as duas mais valias da equipa, os jogadores mais capazes de desequilibrar o adversário. Jogando mais sobre a ala, ou mais puxados ao centro, a equipa ganha criatividade e qualidade com estes elementos.
Na frente, na ausência do goleador William, André Pinto, Carlos Carneiro ou Edson dotam o Paços de soluções importantes.

É com este plantel que o Paços afastou Naval, Vizela, Arouca e Rebordosa. E que vai permitir a Paulo Sérgio coroar com uma final a sua época de estreia num clube primodivisionário. Ao mesmo tempo que se trata de um grande prémio para uma equipa modesta, cumpridora e séria.
No Jamor o favoritismo está todo do lado do Porto. Os castores chegarão a esse palco conscientes desse facto, mas sabendo que o futebol é uma caixinha de surpresas e que num dia bom, conjugado com uma tarde menos feliz dos dragões, a equipa tem hipóteses de conquistar o troféu. E mesmo que não aconteça, as competições europeias, em 2009/2010 já colocarão os pacenses no mapa do futebol europeu. Quem diria?

J.Moutinho, Kasparov num tabuleiro verde

à(s) 01:31

quarta-feira, 22 de abril de 2009


O Sporting anunciou ontem à noite, a renovação do contrato com o seu capitão, saído da Academia, João Moutinho. O clube passa a receber o valor total da venda do seu activo, ao mesmo tempo que baixa o valor da sua claúsula de rescisão. No que parece uma cedência de ambas as partes, de Moutinho porque abdica da parcela a que tinha direito em caso de transferência, do Sporting porque baixa o valor pelo qual poderá transferir o seu jogador mais valioso.
22.5 milhões de euros é o valor que os interessados terão de desembolsar, para passar a contar com o português no seu plantel.

Olhando para a conjectura de mercado, em épocas de crise económico-financeira, podemos questionar se existe algum clube disposto ou capaz de dispender este valor para concluir a operação. Mas é muito provável que em Inglaterra, por entre Aston Villa, Arsenal, Everton, Manchester City ou Chelsea, pelo menos um avance na direcção de Moutinho.
Tal facto só dá conta da valia do capitão do Sporting. Ninguém olha para ele esperando que resolva directamente jogos. Porque não tem um drible fabuloso, porque não tem uma capacidade de remate acima da média, porque não tem uma visão de jogo extraordinária. Então porquê? Porquê 22.5 milhões de euros por um jogador assim? É simples, aos 22 anos, Moutinho representa na perfeição o protótipo de jogador moderno.

De uma regularidade assombrosa, capaz de realizar uma época completa, sem decréscimo de performance. Capaz de preencher todas as posições próximas da zona mais central do meio-campo, sozinho, em duplo pivot ou losango. Sempre com grande sapiência e maturidade que lhe permitem entender muito bem cada momento do jogo, todas as exigências da posição que ocupa, todas as necessidades da equipa.
Como referi, não se pode esperar de Moutinho que decida jogos. Embora por vezes o faça. Vale em média 6/7 golos por época, um pouco mais se falarmos de assistências. Mas, mais do que tudo, vê-se nas equipas que defende, um equilíbrio entre ataque e defesa, ou seja, muita competência nas transições. E uma qualidade pouco comum, de conciliar técnica, com muita capacidade táctica e de trabalho de equipa.
Inteligência, competência e seriedade. Este é o futebol do 28 do Sporting, mais um excelente 'produto' da Academia de Alcochete, e que dificilmente se continuará a expressar em Portugal.