
A minha idade não me permite ver futebol há tanto tempo quanto isso. Lembro-me vagamente do Braga do Rui Correia, do Zé Nuno Azevedo, do Artur Jorge, do Barroso, do Karoglan ou do Forbs. Depois o de Armando Sá, Ricardo Rocha, Tiago, do Fehér, do Zé Roberto. Provavelmente alguns destes jogadores nem coincidiram na mesma equipa, mas a ideia que essencialmente quero passar, é que todos eram grandes jogadores. Mas não tenho a memória de considerar o Braga ano após ano como uma equipa temível. Naturalmente, um candidato à UEFA, ou à primeira metade da tabela.
Isso mudou. E justiça seja feita desde a chegada de António Salvador, aquele que considero um dos dirigentes mais sagazes e profícuos do futebol português. Um homem, que desde que começou a consolidar o seu projecto, colocou o Braga como actual quarto grande do futebol português (sim, considero o título de quarto grande rotativo, ou seja Belenenses, Boavista, Braga e Vitória de Guimarães vão chamando a si a disputa). Contratações cirurgicamente (bem) efectuadas, um estádio fantástico que foi um acto de coragem, boa política financeira.
Mas, apesar de tudo, com um ego demasiado grande. Ou provavelmente com a ambição que o clube crescesse mais depressa do que podia. Por isso, desde a saída de Jesualdo Ferreira (após excelente trabalho) nenhum treinador tenha conseguido cumprir a 100% os objectivos propostos. E por lá passaram homens competentes como Carlos Carvalhal, Manuel Machado ou Jorge Costa. Este ano talvez seja diferente. Salvador contratou alguém que sabe muito da coisa - Jorge Jesus. E que provavelmente tem um ego até maior que o seu. Mas agora, tem uma espécie de dicionário do futebol nacional - Carlos Janela - a fazer a ponte. E os resultados estão à vista. Embora uma maior focalização inicial na Europa tenha feito o Braga sair de duas competições (Taça de Portugal e Taça da Liga) mais cedo do que o previsto, no campeonato os minhotos estão a apenas quatro pontos do primeiro lugar. As hipóteses de uma candidatura mais séria serão testadas durante este mês de Janeiro.
A equipa assenta por base numa mescla entre o 4x4x2 losango e o 4x1x3x2. Para isso, conta com a capacidade de Luis Aguiar bascular no terreno, alternando, muitas vezes no mesmo jogo, entre os dois sistemas. Quando joga Mossoró no centro, pelas suas características, tem mais dificuldade em baixar fazendo com que o Braga assuma mais o losango.
Na baliza aquele que considero o melhor guarda-redes do campeonato - Eduardo. Excelente quer entre os postes, quer fora deles, transmite muita força, liderança e confiança ao quarteto defensivo.
Que tem sido assolado por lesões, essencialmente no centro da defesa. Se Paulo Jorge é uma carta fora do baralho desde o início de época, Moisés e Rodriguez, têm sido também afectados por algumas mazelas. Fora isso, são a dupla indiscutível, centrais de muita qualidade, fortes na marcação (mais Moisés), muito bons a ler o jogo e a sair a jogar (mais Rodriguez), fortes nas bolas paradas ofensivas (outra vez mais Moisés).
Nas laterais outros dois bons jogadores: Evaldo e João Pereira. O primeiro, mais forte defensivamente, equilibra mais a equipa, enquanto o segundo aparece mais em incursões ofensivas. Embora ambos desempenhem bem as duas funções (e respectivas transições), o que lhes permite alternar funções, permitindo várias soluções à equipa, sem a desequilibrar. Também por isso a promessa Edimar (que vai finalmente poder alinhar) terá dificuldades em jogar, um pouco à imagem de Filipe Oliveira.
Mesmo por que, na impossibilidade de João Pereira, ou quando Jesus pretende outro tipo de soluções, seja Frechaut o homem que actua na lateral direita. Ou no centro da defesa quando há lesões ou castigos. Ou à frente da defesa. Uma autêntica benesse como o seu treinador o tem apelidado. Quando a equipa está toda operacional, é na posição 6 que Frechaut actua. Discutindo esse lugar com Vandinho. Lugar onde me parece o Braga ainda poder melhorar. Seria com o Madrid, o melhor Madrid. Com boa leitura de jogo e ocupação de espaço, cultura de posse, qualidade de passe. Bruno Tiago e Stélvio são duas jovens promessas que poderiam igualmente ocupar essa mesma posição. Têm qualidade, mas neste plantel a afirmação será difícil.
Mais sobre a direita, o lugar é de Alan. Porque as lesões e a falta de ritmo não largam Jorginho, mas porque o brasileiro desempenha as funções muito bem. Culto tacticamente, cumpre muito bem tarefas defensivas, e a atacar abre muito bem na faixa, dando largura ao jogo do Braga. Rapidez, qualidade técnica, imprevisibilidade, tudo armas com que dota a equipa.
Á esquerda, maioritariamente, alinha um jogador incompreendido no Minho. César Peixoto. Mesmo assobiado, já afirmou não mudar o seu futebol. Acredito que Jesus agradeça. Porque numa equipa com muitos homens de pendor ofensivo, ele é quem melhor equilibra a equipa. Ou antes, nunca a desequilibra. Sabe quando guardar a bola, sabe quando soltá-la. Mesmo que por vezes seja de certa forma passivo, a sua colocação no terreno resolve muitos problemas ao Braga. E depois tem muita qualidade quer no cruzamento, quer na bola parada. A importância de Peixoto, faz com que Matheus jogue poucas vezes ali. Apenas quando Jesus quer arriscar mais. Caso contrário actua no vértice ofensivo, ou na frente. Maioritariamente até inicia os jogos a partir do banco. Porque é daqueles jogadores capazes de mexer com um jogo, de abanar com os colegas, de deixar de rastos defesas já desgastadas. Muita qualidade técnica naquele pé esquerdo.
Mais sobre o centro Aguiar ou Mossoró. Mais o uruguaio porque é mais capaz no conjunto dos quatro momentos de jogo. Mesmo ofensivamente, não sendo tão imprevisível, tão tecnicista, dá mais soluções. É mais consequente, bate bem bolas paradas, faz mais golos. E depois a tal questão do sistema que falei em cima. Dá mais equilíbrio à equipa e possibilita a transição entre o losango e o trio de meio campo em linha.
Á frente quatro boas opções. Cinco se contássemos com Orlando, que não tem alinhado. Se de Paulo César se pode aplicar um pouco do que disse a Matheus, sendo até indicado para jogar mais no contra ataque, o austríaco Linz, principal figura do Braga nas últimas épocas, tem tido dificuldades em entrar no 11, porque Meyong e Renteria se complementam melhor e se adequam mais a um esquema com dois avançados. Linz continua a ser um óptimo jogador, obviamente que nada desaprendeu, e tem utilidade em determinado tipo de jogos, ou situações específicas dentro de um jogo. No entanto, a sua menor mobilidade, faz com que esteja mais talhado para jogar sozinho na frente. Com alguém nas costas.
Meyong e Renteria quase já jogam de olhos fechados. O camaronês é um avançado que consegue iludir muito bem a marcação, que joga também muito bem fora da aérea, mas que ao mesmo tempo é um excelente finalizador, marcando muitos golos. Renteria tem reconhecidas dificuldades na marcação. Mas é importantíssimo na equipa. É algo trapalhão, é verdade, mas Meyong pode agradecer em boa parte ao colombiano grande parte dos golos que tem marcado esta época. Renteria, embora não seja um exímio finalizador, desgasta imenso a defesa contrária, abrindo ao mesmo tempo inúmeros espaços, porque joga com qualidade e de forma inteligente. Sem dúvida um dos bons avançados da nossa Liga, talhado para esquemas com dois homens na frente.
Em suma este Braga, é ao contrário do que se poderia pensar pela quantidade e qualidade de soluções de cariz mais ofensiva, uma equipa muitíssimo equilibrada e que defende muito bem. Prova disso é o facto de ser a defesa menos batida do campeonato. E curiosamente a atacar é mais curta. Conta com uma média de cerca de um golo por jogo, sendo que Meyong tem cerca de metade dos golos da equipa (6 em 14, 13 jornadas). O conseguir este equilíbrio é um dos grandes méritos de Jorge Jesus, aliás, é mais uma prova da sua capacidade enquanto treinador. E está num clube excelente para explanar as suas qualidades.
Nesta segunda metade do campeonato, um dos principais desafios dos arsenalistas será melhorar a relação entre processos. Principalmente nas transições ofensivas, claro, sem perder o equilíbrio que vem demonstrando. Acredito que a solução passará pelo melhor Andrés Madrid, afinal, uma garantia de "saída" de bola com qualidade.
Passando bem por Janeiro, acredito que este Braga seja uma equipa a ter em conta na disputa pelos três primeiros lugares. O salto que tem faltado ao clube.