O título é tudo que eu não quero escrever no blog. O assunto idem. Se fosse por apetites, hoje estaria a escrever sobre José Mourinho, e a sua distinção pela Faculdade de Motricidade Humana de Lisboa. Contudo, o futebol português não deixa. E não é possível deixar passar toda esta situação em claro.
Infelizmente, e ao contrário do que a sua importância transpareceria, a Taça da Liga começou mal, e acabou pior. Com maus contributos dos três maiores clubes portugueses. É pena.
Mas, o que me aborrece e me indigna é a leviandade, o falso moralismo, o clima de suspeição, o 'incêndio' que, e não é de hoje, se tem criado à volta deste assunto. Desde televisões, passando por jornais, blogs, cafés. Desde os responsáveis, os ilustres, aos mais anónimos.
Já se ouviu, já se leu, chorrilho de disparates tal, que é difícil ficar impávido. Já vi defender-se e apoiar a atitude de Pedro Silva. Hoje, depois de serenar, o brasileiro veio apresentar as desculpas naturais. Como obviamente teria de ser. Depois a repetição de um jogo, por um erro de arbitragem aos 73 minutos. Defendido por pessoas com responsabilidade como uma medida possível e de enorme bom senso e justiça. Esquecendo-se o precedente grave que esta situação induziria.
Agora, a arbitragem. Lucílio Batista errou? Indiscutivelmente. Errou disciplinarmente ao longo de todo o jogo, errou gravemente no lance da grande penalidade. Em relação a este lance o que me parece incrível, é tratá-lo de forma diferente de todos os outros erros de arbitragem que se têm visto ao longo da época. Só não se confunda incompetência com intencionalidade. Muito menos falemos em roubos. Lucílio errou porque não é um bom árbitro. Lucílio provavelmente sentiu-se desesperado por após o apito e a conversa com o assistente, não ter a certeza da sua decisão. Porque sabia o que o esperava. Mas alguém tem dúvidas que há um sentimento repressivo e repercutório nos árbitros, que os condiciona, que agudiza ainda mais a sua falta de preparação, sentimento esse que é propiciado pelas pressões que os clubes exercem? Os mesmos que no dia seguinte aos jogos se indignam? Que pena que a hipocrisia não termine.
É para mim impensável que este episódio seja empolado da forma como o está a ser. Quando há clubes que habitualmente são muito mais gravemente e quiçá escandalosamente expoliados, e que devido à sua menor dimensão não consigam fazer valer a sua voz. O futebol português está cada vez mais transformado no futebol dos grandes, dos cosmopolitas, dos levianos, em jogos de interesses. Em relação aos grandes problemas que transtornam e ferem de morte este desporto, o silêncio dos que podem é quase total. Os problemas da arbitragem, esses sim. São escalpelizados até ao tutano, quase sempre pelos mesmos clubes, em jogos de pressões, ou por simples e inteligentes manobras de diversão. Mas são tratados pontualmente, conjecturalmente, ao sabor do vento, das marés e das conveniências. Porque as reformas que são precisas, não interessam fazer. Existem sempre forças ocultas que o impedem.
Agora, uma espécie de guerra SportingxBenfica. Com Taça da Liga, título nacional e Liga dos Campeões pelo meio. Colocando-se uma direcção competente, um trabalho importante e sério como o que tem sido levado a cabo pela equipa de Hermínio Loureiro, em causa. Tudo por um penalty. Que em teoria valeu uma final, mas não passa de um penalty a por em causa uma estabilidade, um crescimento, uma limpeza do nosso futebol. Um lance a fazer esquecer as defesas de Quim, o penalty de Cardozo, o crescimento de Pereirinha e Miguel Vítor, a regularidade de Tiago. A festa nas bancadas, a excelente organização da partida.
No meio, os parasitas. Os que aproveitam esta triste situação para captar leitores, para captar seguidores, para defender causas com imenso oportunismo à mistura. Os programas do costume, que passam horas a discutir o mesmo lance, com incursões fossilizadas a uma, duas, três, cinco, dez épocas atrás. E o futebol. Que vai perdendo credibilidade nas mãos destas pessoas. Que vai morrendo devagarinho enquanto nada muda. Que perde a sua essência, quando se discute o acessório, e se esquece (porque dá jeito), o essencial.
E nós, os adeptos que vêem o desporto-rei apaixonadamente e desinteressadamente, ficamos no centro de tudo isto. Alguns preocupados, questionam-se. Outros riem-se enquanto enchem os bolsos e enganam os adeptos. Incompetência, falta de seriedade e de carácter, falta de espírito de compromisso e de idoneidade. Vai assim o futebol em Portugal. E já não basta mudar as caras. É preciso mudar a nossa cultura desportiva. Que vai muito mal...


