Pois é. Ninguém nas suas mais pessimistas previsões, diria que Portugal ia sair de Brasília pregado a tão estrondosa derrota. Um 6x2 é um resultado incomum, e onde os dois golos marcados pela selecção lusa podem servir para atenuar a ideia de um descalabro, mas basta pensar que um 4x0 ou um 5x1 são resultados semelhantes (diferença de 4 golos) para aquilatar que o que se passou ontem à noite nos arredores de Brasília foi uma espécie de humilhação.
Um jogo entre dois países irmãos com um estádio cheio de pessoas vibrantes e onde marcaram presença ainda bastantes portugueses, dois hinos lindíssimos abrilhantados pelos respectivos intérpretes, um início de jogo entusiasmante davam todas as pistas de que seria um jogo extraordinário, de festa. E foi-o para o Brasil, não para Portugal.
Volto a afirmar que confio nas capacidades de Carlos Queirós. Sei também que não foi o seleccionador nacional quem marcou o particular e que muito provavelmente se pudesse ter escolhido, não aceitaria a partida. Mas ontem à noite Queirós exponenciou, por erros próprios, a margem de risco que o jogo já trazia para Portugal.
Desde já não falo na convocatória. Apesar de continuar a não ter dúvidas que Nuno Gomes é a melhor opção para a frente de ataque, percebo de certa forma a experiência Danny.
O que não se percebe é experimentar Tiago na posição 6, num jogo com este grau de exigência, perante o fortíssimo meio campo ofensivo do Brasil. Tiago é um excelente jogador, mas não reúne as características necessárias para ser um número 6. Não me lembro sequer de ter alguma jogado naquela posição. No Braga, Barroso jogava atrás de Tiago, no Benfica era Petit, no Chelsea Makelelé, no Lyon Toulalan e actualmente na Juventus é Sissoko quem tem desempenhado essa função. Para o lugar de médio mais recuado não me parece existirem grandes dúvidas. Raúl Meireles apesar de ser certo modo uma adaptação, é aquele que neste momento oferece mais garantias. Fernando Meira pontualmente pode ser uma opção. Depois há Pelé e Miguel Veloso que quanto a mim podem ser no futuro as melhores opções, mas tudo isso vai depender da evolução que tiverem nos seus clubes.
Depois, elogiei aqui a convocatória de César Peixoto. Mas, não se percebe que tenha entrado a 10 minutos do fim para jogar no meio campo (?!), quando durante toda a segunda parte o Brasil fez do corredor esquerdo português o seu principal passador.
Quanto à experiência Ronaldo na posição 9, estou ao contrário de muitos, completamente contra. Ronaldo é um jogador que melhor que ninguém deve aparecer naquela posição, e não partir daquela posição, dando-se excessivamente à marcação. São coisas diferentes e Queirós melhor do que ninguém devia sabê-lo, aliás a "experiência" durou apenas 30 minutos.
Individualmente Bruno Alves deixou-nos com saudades de Ricardo Carvalho, mas obviamente que não pode ser crucificado até porque ninguém no quarteto defensivo esteve acima da mediocridade. Para isso, é certo que o meio-campo não deu a cobertura necessária, antes pelo contrário, os desequilíbrios nasceram daí. De Cristiano Ronaldo não me lembro de uma única acção positiva, antes (à imagem de outros elementos da equipa), tiques de mau perdedor. Se este jogo contasse alguma coisa para a atribuição da Bola de Ouro, o capitão da Selecção ficaria muito longe do galardão. Tiago este como já referi, absolutamente perdido em campo, mas não seria justo pedir mais. Quanto a Deco, muito longe do que nos tem habituado. Na primeira parte sempre demasiado próximo de Danny, demasiadamente dado à marcação e sem vigor físico que lhe permitisse por em prática os seus atributos.
Pela positiva, destaco as boas exibições de Danny na primeira parte, Nani na segunda e Maniche. O luso-venezuelano foi sacrificado ao intervalo para testar a tal opção "CR9", mas apesar de muitas vezes desapoiado, estava a desenvolver acções interessantes. Maniche terá sido o melhor português em campo.
Naturalmente que a exibição do Brasil, mesmo contando com a ajuda portuguesa, foi extraordinária. Maicon foi sempre mais um extremo que um lateral, criando desequilíbrios sucessivos. Anderson mais parece um rolo-compressor pela intensidade que coloca em campo, aliada a uma cultura táctica incrível para quem tem 20 anos. Elano foi o pêndulo brasileiro, não admira que Mourinho o admire tanto, pois para além de ser muito forte tecnicamente, a nível táctico é fortíssimo sacrificando-se inúmeras vezes para que o Brasil não se desequilibrasse. Até porque à sua frente, Kaká, Robinho e Fabiano deram espectáculo. Grande exibição!
Dizem que as estatísticas (ataques, remates, cantos, posse de bola) foram semelhantes. É certo que sim. Mas sabemos que hoje em dia isso nada representa no futebol. Importa sim a forma como se interpretam essas acções, e principalmente como se definem as jogadas, e nesse campo, a diferença de qualidade foi gritante.
No entanto, e apesar da derrota estrondosa, ver jogos assim dá gosto. Até que começaram as substituições sucessivas, o ritmo de jogo foi altíssimo, a entrega foi absolutamente inquestionável (valha-nos isso), e o tempo útil de jogo foi dos mais elevados que tenho memória. O futebol português teria muito a ganhar se os jogadores do nosso campeonato seguissem a conduta que se verificou ontem à noite. E isso está na mentalidade, não na qualidade.
Para terminar, acredito que nem tudo tenha sido negativo, e que se possam tirar ilações importantes desta partida. A começar pela postura dos responsáveis portugueses cada vez que sofríamos um golo e pelas declarações de Queirós após o jogo. A rever...


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